«A Pedra vivente das pedras vivas» | Homilia D. José Cordeiro - 07.10.2021 | Diocese Bragança-Miranda

A Pedra vivente das pedras vivas

Vigésimo aniversário da dedicação da igreja Catedral (7.10.2001)

Vigésimo aniversário da Ordenação episcopal de D. António Montes (14.10.2001)

Décimo aniversário da Ordenação episcopal (2.10.2011)

 

1. Qual é a missão do essencial?

Qual é a missão do essencial de uma igreja Catedral? «O segredo da catedral é a presença de Cristo no seu Corpo místico; é o mistério da Igreja: o mistério da Igreja una, santa, católica e apostólica. (...) E sobretudo é preciso dar à Igreja de homens um espírito sobrenatural, à Igreja material uma animação espiritual, ou seja, a vida litúrgica. Na verdade, é a liturgia que faz falar as pedras, que faz corresponder a cada pedra morta uma alma viva, que desvenda e realiza o segredo da catedral, porque atualiza nela, em toda a sua plenitude, o mistério da presença de Cristo Pão da Vida, de Cristo Sacerdote e Vítima, de Cristo que é para nós Caminho, Verdade e Vida, de Cristo Emanuel que mantém a promessa de acompanhar os nossos passos ao longo da história até ao fim dos tempos» (Card. A. Sodano, carta a D. A. Rafael, 11.9.2001).

Com efeito, «A catedral é, pois, poderoso símbolo da Igreja visível de Cristo, que nesta terra reza, canta e adora» (São Paulo VI). O visível mostra o mistério invisível.

O tema bíblico “pedra” atribuído a Cristo “pedra vivente” e “pedra angular”, é também apontado para os Apóstolos, “as colunas” e para todos os fiéis “pedras vivas”, que formam uma casa espiritual (1Pd 2,4-5) ou seja, “o templo santo e a habitação de Deus no Espírito” (Ef.2,21-22; 1Cor 3,16-17; 2Cor 6,16-19).

O resultado dos que aderem a Jesus Cristo, a pedra vivente, é o de se tornarem pedras vivas para a construção de uma casa espiritual. O novo culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,24) é inaugurado por Jesus Cristo. Por Ele, Nele e com Ele constitui-se uma nova relação com Deus e uma participação no seu sacerdócio. É Ele a fonte e o centro do sacrifício espiritual, porque a fé não é uma técnica é a vida em Cristo.

A exterioridade cultual dos judeus dá lugar a uma adesão espiritual com o oferecimento da vida toda e na relação de cada um com os outros nasce um único organismo sacerdotal, isto é «raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de sua particular propriedade» (1Pd 2,9).

Todas as pedras são importantes na complexa e apaixonante construção da Igreja, mesmo aquelas de tropeço: «Semeados de rosas desfolhadas, o coração do homem, fraga dura, transforma-se na terra das lavradas, onde cresce ternura» (Miguel Torga).

 

2. Casa de portas abertas a todos na Diocese

A igreja Catedral é a Domus Ecclesiae, a casa de todos e a aberta a todos. No dia da dedicação, a oração própria ressoou assim: «Esta casa anuncia o mistério da Igreja... seja esta casa lugar para sempre santificado, e este altar, mesa continuamente preparada para o sacrifício de Cristo. (...). Aqui ressoe jubilosa a oblação do louvor; voz dos homens unida aos cânticos dos Anjos, e incessantemente suba para Vós a oração pela salvação do mundo. Aqui encontrem os pobres a misericórdia, alcancem os oprimidos a verdadeira liberdade, e todos se revistam da dignidade de filhos vossos, até chegarem, exultantes de alegria, à Jerusalém do alto, a cidade do Céu».

De facto, as igrejas são casas dos homens onde Deus aceita habitar. Que todos se sintam pedras vivas e mesmo aqueles que parecem mais longe: os reclusos, os doentes, os migrantes, os pobres, os excluídos por qualquer motivo de ordem social, económico, religioso ou cultural.

A igreja Catedral é lugar da memória e da gratidão, ao mesmo tempo que é casa de oração e da escuta da Palavra de Deus, para uma igreja serva, que educa celebra e festeja. Por outras palavras, aqui, no próximo dia 17 de outubro em união com toda a catolicidade da Igreja, prosseguiremos o caminho para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão.

Agora na nossa igreja Catedral repousam os nossos antecessores e construtores da Igreja Diocesana: D. Abílio Augusto Vaz das Neves; D. Manuel de Jesus Pereira e D. António José Rafael.

 

3. Ilimitada ação de Graças

Além do XXº aniversário da dedicação da igreja Catedral (7.10.2001), damos graças pelo XXº aniversário da Ordenação episcopal de D. António Montes (14.10.2001) e no Xº aniversário da Ordenação episcopal (2.10.2011) deste vosso servidor do Evangelho.

A maior ação de graças acontece na celebração da Eucaristia. De facto, «Não podemos esquecer que o lugar privilegiado da catequese é a própria celebração eucarística, onde os irmãos e as irmãs se reencontram juntos para descobrir sempre mais os diferentes modos da presença de Deus na sua vida» (Papa Francisco).

Esta ocasião é igualmente de ilimitada ação de graças na profunda gratidão a Deus, à família, ao presbitério, ao diaconado, à vida consagrada, aos organismos de partilha e comunhão, às autoridades autárquicas, civis, académicas, das forças de segurança e proteção, às IPSS’s, a todas e a cada uma das pessoas da nossa amada Diocese de Bragança-Miranda. Na comunhão dos santos recordamos todos os defuntos que peregrinaram connosco.

Há uma oração monástica reza assim: «Nas tuas mãos, Senhor, está o nosso presente; nos teus caminhos está o nosso futuro; na tua misericórdia está o nosso passado; a nossa vida é plena só em Ti». O dom gratuito é para ser doado, qual Evangelho da Esperança.

Esta é uma oportunidade de graça para: reexaminar o passado, transformar o presente e desenhar o futuro. Crescer, fazer sempre mais e fazê-lo sempre melhor, com amor, humanidade e humildade. Eis o desafio permanente!

A escuta, a conversão, a confiança, a comunhão, a coragem criativa e a oração são caminhos sempre a prosseguir nos caminhos sinodais para uma Igreja: comunhão, participação e missão. Quem escuta, caminha com coragem e confiança.

Caros irmãos e irmãs: é preciso acreditar e amar a Igreja, serva e esposa de Jesus Cristo! «Renovai, Senhor, a vossa Igreja de Bragança-Miranda com a luz do Evangelho. Fortalecei o vínculo da unidade entre os pastores e os fiéis do vosso povo, (...) de modo que, num mundo dilacerado pela discórdia, a vossa Igreja resplandeça como sinal profético de unidade e concórdia» (Oração Eucarística V/A).

Como São José, peregrino na fé, o Senhor nos conceda o dom da arte difícil da escuta ativa e responsável e a confiança ilimitada em Cristo, em Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja e na Igreja una, santa, católica e apostólica.                                                                                                                                                                   

 + José Manuel Cordeiro

Fotografia: Bruno Luís Rodrigues/SDCS