Homilia de D. António Marto | Santuário do Imaculado Coração de Maria, Cerejais, 28.05.2023 | Diocese Bragança-Miranda
Nossa Senhora de ao pé da porta
Hoje viemos aqui como peregrinos ao encontro da Mãe. Também eu venho como peregrino como vós e convosco. Não viemos só individualmente; viemos como povo de Deus em caminho. Cada um está no meio deste mar de crentes, desta família de irmãos/ãs que partilham a mesma fé em Cristo Salvador e a mesma devoção à sua e nossa mãe. Cada um sente-se feliz por se aproximar dela para buscar a sua consolação materna e a esperança que ela nos dá. Porque Cristo não nos quer deixar sem a consolação maternal de Maria e a força do Espírito Santo. Hoje estamos aqui como os apóstolos no cenáculo com Maria para com ela celebrar a festa do Pentecostes.
Desde já quero saudar todos vós aqui presentes, com todo o afeto e no amor de Jesus Cristo e de sua mãe. E convido-vos a fazer uma meditação sobre Nossa Senhora deixando-nos iluminar e inspirar pela Palavra de Deus nesta festa do Pentecostes.
Nossa Senhora do espanto e do encanto
O evangelho refere que os discípulos de Jesus, após a sua morte, estão de novo reunidos no cenáculo, à porta fechada, com medo dos judeus. Mas com eles não está Jesus. Na comunidade há um vazio que ninguém pode preencher. Falta-lhes Jesus. A quem hão-de seguir agora? Que poderão fazer sem ele? Ninguém os pode consolar da sua tristeza.
Nesta situação, de forma inesperada, Jesus ressuscitado apresenta-se no meio deles. Ficam atónitos, como que incrédulos: será possível? Ele dá-se a reconhecer pela palavra da sua paz e pelos sinais das chagas que são o sinal permanente do amor com que se entregara até à cruz.
Eis a novidade surpreendente: Jesus ressuscitou, está vivo, está connosco. Não é uma personagem do passado, um defunto a quem se recorda e presta culto. Não é uma figura heroica de há dois mil anos que disse e fez coisas boas, belas e portentosas como ninguém, que nos deixou um ensinamento e exemplo maravilhoso, regras de bom comportamento e nada mais. Não podemos reduzir Jesus a um herói excecional para figurar na galeria de um museu!
Cristo vive e é Deus connosco. Deus próximo, íntimo com o seu amor, a sua paz, a sua misericórdia, o seu perdão através do dom maravilhoso do seu Espírito Santo que tudo renova. O Ressuscitado está de novo no centro da fé, da comunidade, da Igreja. É uma experiência inédita vivida com uma explosão de alegria e de espanto!
Experiência semelhante vivida ainda com maior deslumbramento e espanto foi a de Maria de Nazaré quando recebeu a anunciação da novidade mais inimaginável, surpreendente e mais importante da nossa história: o mistério da incarnação do Filho de Deus, a humanização de Deus connosco no seio de Maria por Deus escolhida. Após a surpresa, ela deixa transparecer o seu espanto, deslumbramento, maravilhamento e encanto no cântico do magnificat: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. O todo Poderoso fez em mim maravilhas”! Nossa Senhora do espanto e do encanto!
Foi este encanto pela beleza de Deus e do seu amor que Nossa Senhora em Fátima transmitiu aos pastorinhos, que levou o pequeno Francisco a exclamar: “Gostei muito de ver o anjo. Gostei mais de ver Nossa Senhora. Mas do que mais gostei foi de ver Deus naquela luz que Nossa Senhora nos metia no peito e que ardia sem queimar. Gosto tanto de Deus! Oh como é Deus! Isso sim é que não podemos dizer”!
Meus irmãos, estamos a viver hoje uma certa indiferença religiosa, uma espécie de eclipse cultural de Deus, o esquecimento de Deus e da sua presença. Isto está a contagiar muitos cristãos e leva a viver como se Deus não existisse, um Deus longínquo, distante sem atração. Maria convida-nos hoje a descobrir o gosto, o gozo e o encanto de Deus e da beleza do seu amor, a proclamar como Deus é grande. Ela sabe que se Deus é grande, também nós somos grandes. Hoje, num mundo plural e pluralista como o nosso, se não vivemos uma experiência de relação pessoal e íntima com Deus, não há fé cristã que se aguente e seja fonte de alegria.
Nossa Senhora das interrogações
Não vivemos a fé numa redoma de vidro nem numa estufa de plantas sempre à mesma temperatura, imunes aos vírus das crises. Vivemo-la no meio do mundo com problemas e dificuldades do dia a dia. Por isso, a aventura da fé é feita de luzes e sombras. Conhece momentos de consolação e de entusiasmo, mas também de cansaços, perplexidades, dúvidas e noites escuras. O exemplo dos apóstolos e de Maria diz-nos que não devemos temer as crises da vida e da fé. De facto, os apóstolos estavam em crise, fechados e paralisados pelas dúvidas, pela desilusão, pela incerteza e pelo medo após a morte de Jesus. Maria também experimentou perplexidade e pôs interrogações perante a anunciação do anjo (como é possível tudo isto?) e ao longo da vida e missão de Jesus: quando o velho Simeão lhe diz “este menino será sinal de contradição e uma espada de dor atravessará teu coração”; na perda do menino Jesus no templo; e sobretudo junto à cruz: porquê? Porquê tudo isto? Maria é Nossa Senhora das interrogações que fez e confiou a Deus. E encontrou luz na Palavra meditada no coração e na força do Espírito Santo. Também ela progrediu no caminho da fé. Quando nos abrimos à graça, à luz do Senhor parece que todo o impossível se torna realidade.
Caros irmãos/ãs, as crises não são pecado; são caminho. Muitas vezes tornam-nos humildes para não pensarmos que somos melhores do que os outros. Outras vezes ajudam-nos a reconhecer a necessidade de Deus e permitem-nos voltar ao Senhor, fazer novamente experiência do seu amor como da primeira vez. Ajudam-nos a amadurecer a fé. Nestas circunstâncias, devemos escutar com confiança a mensagem consoladora de Deus a Maria e a quem o acolhe: “não tenhas medo”; ou a palavra de Jesus ressuscitado aos apóstolos: “a paz esteja convosco”.
Deus nunca mete medo! O seu amor é maior, imensamente maior que o nosso coração; mais forte que a nossa fraqueza e os nossos pecados. “Se os teus pecados te assustam, se o teu passado te inquieta, se as tuas feridas sangram e doem, se as tuas quedas te desanimam e desmoralizam, se te parece que perdeste a esperança, por favor não tenhas medo” (Papa Francisco). Há uma coisa que o Senhor te pede por mais incrível que pareça: as tuas dúvidas, as fragilidades, os fracassos, as misérias e os pecados! Confia-os a Ele por intercessão de Maria!
Precisamos da presença de Deus, da paz do coração que só Ele pode dar. Sozinhos não conseguimos resolver as contradições do nosso coração e do mundo. Precisamos da força de Deus que é o Espírito Santo, a força para amar, para ser amado e capaz de amar.
Nossa Senhora de ao pé da porta
A força do Espírito Santo abriu as portas fechadas do coração e da casa dos apóstolos para acolherem o dom de Cristo ressuscitado e saírem ao encontro de todos os povos a anunciar Cristo salvador. Também já tinha aberto a porta do coração de Maria para acolher o Filho de Deus no seu seio e na sua casa e levá-lo ao encontro da prima Isabel, dos pastores de Belém e dos magos do oriente. Nas ladainhas, Maria é invocada como “Porta do Céu”. É uma imagem sugestiva: Maria porta aberta para entrar e nos introduzir na casa do Pai e conduzir-nos ao abraço terno e paterno do amor de Deus.
Mas também é porta aberta para sair ao encontro dos filhos sobretudo dos mais afastados ou necessitados. Como tal convida-nos a ir ao encontro dos outros com as portas abertas do nosso coração e não com as portas fechadas do nosso egoísmo para com quem caminha a nosso lado cada dia; do nosso individualismo para com quem vive só, na solidão; da indiferença para com os que sofrem e vivem na pobreza; ou da exclusão das nossas comunidades daqueles que andam afastados ou não têm a vida em regra. Sejamos sempre porta aberta que permite a todos entrar e experimentar a beleza do amor, da fraternidade e do perdão do Senhor.
Apraz-me chamar-lhe Nossa Senhora de ao pé da porta porque me faz lembrar um momento particular da minha vida. Quando ia visitar meus pais à aldeia, na hora da despedida, ao sair com o carro, minha mãe por vezes estava ao pé da porta para acenar adeus ao filho e ficava sussurrando uma oração. Gosto de pensar em Nossa Senhora ao pé da porta do céu a velar com o seu olhar de mãe por todos os filhos para lhes transmitir a misericórdia de Deus que se estende de geração em geração.
Mãe de ternura, rica de amor, mãe em cujo coração bate o pulsar do coração dos filhos, do coração da Igreja. Da porta lá do céu olha para todos nós, para cada um/a de nós. Olha-nos com o olhar de mãe, com ternura, misericórdia e compaixão. Com o seu olhar diz a cada um: força, coragem meu filho/a, sou eu que estou a teu lado para te apoiar.
Ela conhece-nos bem. É mãe. Sabe bem quais são as nossas alegrias e dificuldades, as nossas esperanças e nossas desilusões. Quando sentimos o peso das nossas fraquezas, dos nossos fracassos e pecados olhemos para Maria que diz ao nosso coração: levanta-te, vai junto do meu Filho Jesus e nEle encontrarás acolhimento, misericórdia, novo alento e nova força para te levantares e continuares o caminho! Como bons filhos digamos: Querida mãe, da porta do céu dá-nos a tua bênção sobre nós e a nossa terra!
† Cardeal António Marto, Bispo emérito de Leiria-Fátima
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Fotografia: Santuário diocesano do Imaculado Coração de Maria





