Santa Maria Mãe de Deus - Homilia de D. Nuno Almeida | Diocese Bragança-Miranda

Homilia de D. Nuno Almeida

SANTA MARIA MÃE DE DEUS
57.º Dia Mundial da Paz
Catedral de Bragança, 01.01.2024, 18.00h.

1.A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.
No Evangelho deste Dia de Maria e em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria guardava todos estes acontecimentos, compondo-os no seu coração» (Lucas 2,18-19). Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta qualificada. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar ou a conservar com ternura todas estas Palavras, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa.
O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, a organizar, para melhor entender, e para melhor dar a entender. Maria a redigir um Poema, a compor uma Sinfonia, a escrever uma Canção, melodia que fica para a vida inteira surgindo sempre novos acordes de alegria.
Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia e harmonia que nos vêm de Deus, levou o Papa S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz.

2.Celebramos hoje o 57.º Dia Mundial da Paz. Neste ano, o Papa Francisco escolheu a “Inteligência artificial e a Paz” para tema da sua Mensagem. O Papa aborda as “formas de manipulação e controlo social” potenciados pela inteligência artificial e assume que esta é uma ferramenta que se vai tornar “cada vez mais importante”, advertindo para as “oportunidades entusiasmantes”, mas também para “o grave risco” que as novas tecnologias apresentam.
No que às questões da guerra e da paz mais diretamente diz respeito, a mensagem alerta para o perigo, que já se nota, de a utilização de “armas letais autónomas” conduzir a uma perceção menor e mais fria da tragédia da guerra, assim como das responsabilidades morais que envolve, as quais nunca recaem sobre máquinas, mas sempre sobre pessoas.

3.Estão em ato guerras absurdas que destroem violentamente uma parte da Europa, do Médio Oriente, da África … e cujos estilhaços se fazem sentir um pouco por toda a parte. Guerras absurdas, porque não se trata de guerras entre dois exércitos para tal preparados e armados. Trata-se de lançar, cruel e violentamente, a estupidez que nos habita sobre populações humanas pacíficas, normais, que nada tem a ver com tamanha, incomensurável e incompreensível cegueira totalitária. Neste contexto, a sede de paz transforma-se num grito imenso que há de com certeza atingir o céu.
Quando vemos os cenários de guerra a destruir, matar e a lançar tantos refugiados para longe das suas terras ou a ter de enfrentar os perigos do mar e a permanecer no abismo de tantos campos: é sobretudo o olhar dos meninos e meninas refugiados - tantos deles feridos e mortos - que fere o nosso coração e faz com que haja lágrimas nos nossos olhos.

4.No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura, no ano de 2015, a jornalista e escritora bielorrussa Svjatlana Aleksievič contou várias histórias. Ora uma das histórias acontece num hospital de Cabul, durante a guerra no Afeganistão. Uma comitiva de jornalistas visitava os civis feridos e levava presentes para as crianças. O hospital era uma enorme tenda. Os doentes estavam deitados por terra, cobertos apenas por uma manta. A escritora passou por uma mãe com um filho pequeno ao lado. Deixou ao miúdo um pequeno urso de peluche, mas achou estranho que ele tivesse recebido o presente agarrando-o com os dentes. Interrogou, por isso, a mãe: “Porque se comporta ele assim?” A jovem afegã baixou a coberta que tapava o corpo do seu filho. E então alguém teve de amparar nesse momento Svjatlana Aleksievič, porque ela desmaiou: não estava preparada para o que acabava de ver. Uma bomba roubara àquele menino os seus braços.

5.Encontramo-nos numa mudança de época, em que o mundo antigo parece ficar para trás e um novo mundo, não necessariamente melhor, emerge. Um dos pilares da nossa civilização é a noção de “pessoa”. Este invento do cristianismo, permitiu-nos viver com dignidade, ou pelo menos, com conhecimento da nossa dignidade, nas últimas décadas da nossa era. Será assim também no futuro? Poderosos movimentos trabalham, hoje, em sentido contrário: a “animalismo” que praticamente começa a antepor os animais às pessoas; as “filosofias atualistas” que consideram o ser humano pessoa somente num limitado contexto de circunstâncias (P. Singer); a “bioética global” que parece querer desalojar a pessoa do centro da reflexão e entronizar em seu lugar “a” vida impessoal, e talvez cruel; a “dissolução das identidades sexuais”, que eliminam a diferença entre pessoa masculina e feminina, núcleo da nossa existência coletiva, etc.
Na verdade, nesta «noite do mundo», em que domina a “escuridão” e a nefasta atração pela morte, palpável na guerra, mas também no aborto e na eutanásia; tudo nos aparece sem Deus, sem pessoas, sem rosto e sem rumo, sem irmão, sem irmã, tudo à medida sem medida da idolatria do «eu», que julga poder dispor de uma soberania e autonomia sem limites, sem sequer se aperceber dos deserdados e abandonados que já perderam a soberania e a quem já roubámos a autonomia, e que vamos atirando para o sótão das inutilidades.

7.No ano, que agora começa, vão realizar-se diversos e importantes atos eleitorais. Que ninguém fique indiferente! Talvez, como nunca, se levanta, entre nós, a questão: os partidos atuais são verdadeiramente representativos da vontade dos cidadãos? São verdadeiramente intérpretes do “bem comum” como é sentido pelo povo? Conseguem convergir na defesa dos valores comuns da humanidade: morais, de legalidade, de defesa dos mais frágeis, de respeito pela natureza, da valorização e proteção da vida humana desde o seu início até ao seu fim natural, etc.? Será que os partidos políticos se assumiram somente como estruturas para a conquista e conservação do poder político?
Ao aproximarem-se novas eleições, urge “tornar viva e operante a consciência moral” e “dar uma alma à democracia”.
A partir da experiência da comunhão, ou fraternidade, são possíveis - mesmo nos atuais partidos políticos - novas experiências, novos modos de expressão de consenso, e caminhos inéditos para a elaboração de propostas e programas que envolvam toda a sociedade.
A participação e a representatividade política devem ter como ponto de referência a sociedade inteira e todas as suas componentes. Isto significa que todos os sujeitos da sociedade entram em relação, cooperando na busca da solução para os gravíssimos problemas atuais: habitação, saúde, escolas, precariedade laboral, pessoas que trabalham e não deixam a pobreza, etc. Trata-se de superar a forma “feroz” e “guerreira” (ou “trauliteira”) de fazer política e voltar a dar confiança e esperança às pessoas. Trata-se de globalizar a fraternidade: todo o ser humano é meu próximo, é meu irmão e irmã, pois se somos filhos amados de Deus, então somos realmente irmãos. Há um só Deus e uma só Humanidade! Monoteísmo tem como consequência o monantropismo (uma só humanidade).

7. O que nos faz comover também nos deve mover à oração e ação, à partilha concreta segundo a nossa generosidade. Descobrimos que a terra não está acabada, Deus conta com os seres humanos para a aperfeiçoar e continuar a criar a Humanidade. Conta com os seus filhos para que respeitem o “santo rosto do irmão” e promovam a “santa paz do mundo” e o “santo rosto de Deus”, para que se sintam sempre filhos amados e criaturas e não “deuses” de si mesmos e donos de tudo e de todos.
Nunca é demais repetirmos: “Unidos para oferecer a todos a alegria e a esperança do Evangelho!” Estamos todos convocados por Jesus, neste momento, para, segundo as nossas possibilidades, com gestos e palavras testemunharmos o amor de Deus que alivia, cura, alegra e oferece esperança.

Que o nosso Deus faça chegar até nós a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

-Que Deus nos abençoe e nos guarde,
Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,
Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,
Cheios de amor, de paz e de alegria,
Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,
E nos ponha no caminho de Maria.

-O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.
O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia
Num amor maior do que um letreiro.
Vela por nós, Maria, em cada dia
Deste ano inteiro,
Para que levemos a cada enfermaria,
A cada periferia,
Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

Que sob o olhar materno e amoroso de Maria, Mãe de Deus, tenhamos todos um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu e continua a dar! Amen!

+Nuno Almeida
(Bispo de Bragança-Miranda)

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Fotografia: BLR/SDCS