Missa do Galo - Homilia de D. Nuno Almeida | Diocese Bragança-Miranda
Catedral de Bragança, Natal de 2023 (Missa da Noite)
Homilia
Queridos irmãos, queridas irmãs!
1.É uma noite de glória, a glória proclamada pelos anjos em Belém. É uma noite de alegria, porque, desde agora e para sempre, Deus, o Eterno, é Deus connosco. É uma noite de luz: a luz, profetizada por Isaías e que havia de iluminar quem caminha em terra tenebrosa (cf. Is 9, 1), manifestou-se e envolveu os pastores de Belém (cf. Lc 2, 9).
Os pastores descobrem, pura e simplesmente, que «um menino nasceu para nós» (Is 9, 5) e compreendem que toda aquela glória, toda aquela alegria, toda aquela luz se concentra num único sinal que o anjo lhes indicou: «Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). Se queremos festejar o verdadeiro Natal, contemplemos este sinal: a simplicidade frágil dum pequenino recém-nascido. Ali está Deus!
2.A celebração do Natal é solene convite a contemplar o Deus Menino que, na sua fragilidade, nos mostra que é no amor que encontramos o sentido da vida. O Menino que nasce interpela-nos: chama-nos a deixar as ilusões do efémero para ir ao essencial, renunciar às nossas pretensões insaciáveis, abandonar aquela perene insatisfação e a tristeza por algo que sempre nos faltará.
O mistério do Natal interpela e mexe connosco porque é um mistério de esperança e simultaneamente de tristeza. Traz consigo um sabor de tristeza, já que o amor não é acolhido e a vida é frequentemente descartada. Assim acontece a José e Maria, que encontraram as portas fechadas e puseram Jesus numa manjedoura, «por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 7). Jesus nasce rejeitado por alguns e na indiferença da maioria. E a mesma indiferença pode reinar também hoje, quando o Natal se torna uma festa onde os protagonistas somos nós, em vez de ser Ele.
3.O nosso tempo tornou-se aflitivo, pois acordamos e adormecemos com notícias, relatos e imagens aterradoras que não julgávamos possíveis nem nos nossos piores pesadelos. A terrível escalada das guerras e conflitos desumanos multiplica as vítimas inocentes em todos os lados das trincheiras.
“Estamos a navegar num momento tempestuoso e sente-se a falta de rotas corajosas de paz”. Reler estas palavras do Papa Francisco, proferidas na Jornada Mundial da Juventude, faz-nos compreender melhor que temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para despertar e cultivar uma atitude livre e corajosa de promoção da paz. Avivemos a consciência de que a guerra é uma derrota, apenas uma derrota que não resolve os problemas, mas traz mais sofrimento e morte a pessoas inocentes.
Mas não podemos desistir de contribuir com a nossa parte para resgatar a esperança. Faz, por isso, ainda mais sentido recordar e repetir as palavras do Papa Francisco: “Numa guerra há apenas um lado possível, o lado da paz”.
Todos podemos ser pacificadores nos nossos ambientes, nos círculos em que nos movemos, em tudo o que fazemos e dizemos. A paz no mundo também se constrói a partir de gestos pacificadores e de entreajuda. O diálogo pode também ser uma arma poderosa, para que vença a concórdia.
4.Nesta noite santa de Natal, deixemo-nos tocar pela ternura que salva. Entremos no verdadeiro Natal com os pastores, levemos a Jesus aquilo que somos, as nossas feridas não curadas e os nossos pecados. Assim, em Jesus, saborearemos o verdadeiro espírito do Natal: a beleza de ser amado por Deus.
Hoje queremos ter presente na nossa oração a todos e a cada um da nossa comunidade e da inteira família humana, sobretudo os mais velhos, os doentes e todas as pessoas que vivem no sofrimento, na solidão, no isolamento, na prisão, na deficiência, na ignorância, na pobreza, na depressão, no stress, no luto, no desemprego e na migração ou vivem nas periferias existenciais que são invisíveis.
Com Maria e José, paremos diante da manjedoura, diante de Jesus que nasce como pão para a nossa vida. Contemplando o seu amor humilde e infinito, digamos-Lhe pura e simplesmente obrigado: Obrigado, porque fizestes tudo isto por mim, por nós!
Meu Senhor e meu Deus, que te fazes pequeno e frágil,
ensina-nos a tratar a fragilidade com delicadeza.
Meu Senhor e meu Deus
que vens ao mundo sem espaço para te receber,
ensina-nos a acolher os que não encontram lugar.
Meu Senhor e meu Deus
que chegas de forma simples,
mostra-nos como viver o Natal dos pobres, no dar e no receber.
Meu Senhor e meu Deus,
que nasces debaixo do céu estrelado,
ensina-nos a contemplar no meio da tribulação.
Meu Senhor e meu Deus,
que trazes luz às trevas da noite,
ilumina o que em nós é escuridão.
Meu Senhor e meu Deus
que vens para congregar à tua volta,
faz de nós instrumentos de unidade e de paz. Amen!
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda
------------
Fotografia: António Rodrigues/Mensageiro de Bragança





